Blog do Paullo Di Castro


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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Da Mala para as Malas

Foto: Polícia Federal 

Até poucos dias atrás a maior peça de flagrante da investigação da Força Tarefa da Operação Lavajato era da mala com R$ 50.000 transportada pelo deputado Rodrigo Rocha Loures, braço direito do presidente Michel Temer. O que ninguém de bem na República podia imaginar na proporção é que aquela era só a ponta do iceberg. A apreensão de uma série de malas em casa atribuída ao ex-ministro Geddel Rocha Lima, em que foram necessárias várias horas para serem contabilizadas as cédulas encontradas e chegar no exorbitante valor de R$ 51.000.000 (cinquenta e um milhões)! E não era tudo: em dólares foram encontrados mais de 2 milhões e meio.
Como não bastasse de notícia alarmante no dia, tal apreensão ocorreu na mesma terça em que o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, foi conduzido pela Polícia Federal para dar depoimento sobre compra de votos na candidatura do Rio de Janeiro como sede dos jogos em 2016, na operação Fair Play, desdobramento da Lavajato. Um negócio bastante lucrativo para seus operadores visto toda infraestrutura montada com altas cifras de investimento, hoje tendo várias praças esportivas abandonadas.
O eleitor assiste a um governo, que acaba de completar um ano após o conturbado impedimento do mandato da presidente Dilma, viver a revelação de episódios escusos da relação do poder estatal e privado sem precedentes na história. Não houve escândalo algum para aproximar do que estamos vendo hoje. O que se propaga como urgência de aprovar reformas, especialmente a política e previdenciária, termina em papel de coadjuvante frente às mazelas cometidas pelas pessoas públicas que as coordenam.
Isso tudo também a pouco menos de um ano para elegermos deputados, senadores, governadores e presidente. O prognóstico não é nada animador. A mudança de financiamento público de campanha não tira das mãos de quem obtém o capital financeiro formar os potenciais eleitos. Fazer campanha para não reeleger ninguém é uma voz que se sufoca diante da máquina de fazer política trabalhando para reeleger quem lhe é conveniente, seja com os mesmos atores ou seus herdeiros.
No momento em que como população mais temos acesso à informação, menos coisas ficam escondidas e mais preocupação para quem vive à margem da lei, do outro lado da moeda continuamos refém de um ciclo vicioso que se regenera em cada revés, e com poucas perdas obtém ganhos sem fim. A mesma mão que deixa escorrer um pouco do tufo de poder, logo já está abocanhando mais.
Onde está o fio da miada dessa história? Não dá para ignorar a relação de cumplicidade e subserviência entre os três poderes. Enquanto tivermos um judiciário à serviço do executivo, o executivo á serviço do legislativo, o legislativo à serviço do judiciário, com recíprocas verdadeiras, não temos muita chance de ver mudanças profundas na raiz da questão. Entre mala e malas descobertas, vemos que a mudança precisará de porções muito maiores para acontecer.




segunda-feira, 23 de abril de 2012

Quem investiga quem?


A Operação Monte Carlo se desdobra em proporções a perder de vista, todo dia são fatos novos, provas novas, nomes novos envolvidos com o que aparentemente seria só a exploração ilegal do jogo do bicho em Goiás, agora virou o maior esquema de corrupção da política nacional. Sem esquecer o mensalão, cujas investigações reaparecem, com muita propulsão de guerra partidária, mas são ofuscadas por tantos envolvimentos de agentes públicos em torno de um empresário, de uma construtora e uma CPMI surgindo com a árdua missão de julgar os envolvidos, mas aí vem mais problemas: Quem vai julgar?

Alguns pontos da legislação brasileira não favorecem o trato isento de quem investiga e decide o destino dos agentes políticos apanhados em manobras ilícitas. As cotas de nomeações do judiciário são a maior prova disso; os chefes do executivo escolherem boa parcela da instância que julgam eles próprios, não é o que se pode chamar de colegiado isento.

No legislativo as escolhas de relatores e presidentes das Comissões Parlamentares Mistas de Inquéritos fazem parte, como em toda a maneira de fazer política, de conchavos e acordos partidários. Buscando um ilusório equilíbrio da mesa que irá julgar os colegas, e chamar para depor aqueles que normalmente estão envolvidos com vários da casa. Credibilidade é uma palavra que não passa muito aí.

Historicamente o povo sempre tem ao que recorrer por meio do Ministério Público, o único órgão de representatividade que não passa pelos mesmos crivos de nomeações das outras instâncias do Poder Judiciário, diferente dos Tribunais de Contas, que não dificilmente deixam passar aprovações de contas dos governantes que os colocaram lá. Mas o que acontece quando até membros do outrora ilibado MP entra na roda das investigações?

No executivo vemos os governadores de Goiás e do DF, talvez até o do Rio de Janeiro, preocupados com o que mais respingará em seus nomes nas escutas telefônicas da Polícia Federal. Qualquer envolvimento com a mega operação é perigoso, mas o excesso de publicidade do caso não ajuda em sua solução, a mídia em parte se cala por ter a quem responder nos envolvidos, em parte denuncia com teor de maior agravante que as provas aparecem, deixando o povo perplexo e sem esperança alguma na famigerada classe política.

Desanima pensar em onde, tanto a CPMI quanto as investigações da Polícia Federal, vão chegar. Parece não haver um horizonte que permita um desfecho que mostre pra sociedade o tanto de bandido e os poucos mocinhos. A sujeira da lama condena todo mundo, mas a influência do poder maquia a cara da maioria.