Blog do Paullo Di Castro


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sexta-feira, 13 de março de 2015

Muito além das ruas


 
Tomei uma posição sobre os protestos e manifestações desse final de semana. Não é a de ir às ruas nem hoje, nem amanhã, nem domingo. Não é também a de cruzar os braços e achar que está tudo perdido. É um caminho de contramão, o de repensar meu exercício de cidadania, de querer fazer ações práticas que de fato aponte um caminho e mudança de paradigma na nossa vida social.

Sim, as manifestações populares são legítimas, garantidas pela Constituição Federal  e são um instrumento importante de posicionamento popular frente a questões inerentes ao nosso cotidiano. Mas será que só isso basta?

2013 ficou marcado por acontecerem em junho diversas manifestações em todo país. O estopim foi um aumento de passagem de transporte coletivo. Mas diversas bandeiras tomaram o corpo e reivindicaram suas melhorias. Foi lindo ver tanta gente na rua, as redes sociais sendo instrumento poderoso de divulgação, mas a herança disso não foi proveitosa.

Um buraco se formou no espaço de um ano entre as manifestações e as Eleições de 2014. O continuísmo da vitória de quem foi representado tanto por situação como por oposição em vários estados e na presidência foi um diagnóstico de que o efeito de todo barulho chegou só como um sussurro no momento fundamental. 

O que faltou pra esse grito se propagar por mais tempo? O que mudou na participação cidadã de quem foi às ruas ao longo do ano? Não foi muita coisa!

Não adianta ir para a rua e continuar ignorando a ética com o "jeitinho brasileiro", não adianta ir para ruas e se conformar com atos de corrupção que fazemos sem pensar no agravo, não adianta ir para as ruas e furar o sinal enquanto não tá vindo carro na hora, não adianta ir pra rua e usar carteirinha falsa para ter meia entrada, não adianta ir pra rua e sonegar impostos. Que moral eu tenho de cobrar de alguém uma postura que eu não tenho?

O agravo dos nossos erros são bastante relativizados na nossa sociedade. Se tenho uma atitude que parece que não vai prejudicar ninguém em meu beneficio, mas sei que foge do que é plenamente legal, passo por cima, mas não tolero quem faz o mesmo em uma proporção maior que parece prejudicar mais gente. A diferença é a perspectiva do prejuízo, mas o agravo existe da mesma maneira.

Algumas perguntas que venho me fazendo: Me perguntei qual a última vez que mandei um e-mail ou fiz outro contato com um governante ou parlamentar pra cobrar ou reivindicar algo, qual a última vez que pesquisei suas promessas e cobrei a realização das mesmas, qual a última vez que olhei os sites oficiais pra acompanhar projetos e matérias votadas que vão afetar meu dia dia? Qual a última denúncia passei para a imprensa dar visibilidade e provocar mudanças? Ir pra rua é melhor que fazer essas coisas?

Nossa democracia é bastante imatura, falta muito para sermos participativos ao ponto de dar o exemplo e inibir os que se corrompem. Mas a esperança existe, a construção de uma nova geração engajada é possível. Mas será impossível mudarmos algo se a nos participação for só na rua. Quem vai pra  rua, o mínimo de coerência que se espera é fazer o dever de casa!


sexta-feira, 4 de maio de 2012

#FORAMARCONI

Em 1984 tinha apenas um ano de idade, só anos depois vendo imagens na televisão que me lembro de assistir as passeatas pelas Diretas em várias partes do Brasil, eram anos em que a falida Ditadura Militar dava seus últimos suspiros e o país caminhava para profundas transformações sociais. Mais tarde, em 1992, vi a população brasileira pintar a cara e exigir a saída do primeiro presidente eleito democraticamente. Não vi mais minha geração tomar atitudes parecidas, nem em nível nacional, muito menos regionalmente. 




De lá pra cá, poucas foram as manifestações populares significativas que mostraram a insatisfação do povo com o seu governante. Em Goiás, a coisa andava mais devagar ainda, o histórico de coronelismo, familiocracia e os modos arcaicos de governar não tinham ainda provocado alguma mobilização que chamasse a atenção, isso durou até o quarto mês do segundo ano do terceiro mandato do governador Marconi Perillo. 


No dia 14 de abril, pela primeira vez diversos grupos se organizaram via Facebook em especial, com muitos comentários também no Twitter, vídeos no Youtube, com fins de irem às ruas em protesto contra os últimos acontecimentos envolvendo políticos goianos, em especial Marconi, muito citado em várias gravações, além do já "morto politicamente" e "ex-paladino da moralidade" Demóstenes Torres, flagrado em diversas escutas telefônicas reveladas na Operação Monte Carlo que investiga as relações ilícitas do bicheiro Carlinhos Cachoeira com políticos de diversos partidos.




Na segunda semana, dia 21, aliado ao movimento nacional contra a corrupção, o Fora Marconi ganhou mais peso, saiu da Assembléia Legislativa, foi até a Praça Tamandaré, e voltou pra Praça Cívica, terminando em frente ao prédio do TRE, local em que dois incidentes aconteceram, mas que foram atos isolados de pessoas que não entenderam (ou fingiram que não), o propósito da organização. Aglomerados urbanos, de tantas pessoas diferentes infelizmente estão sujeitos a isso, mas o foco do protesto foi mantido.


A presença foi significativa, principalmente pelo fato inédito que representava. A cobertura da imprensa deu um bom espaço, tirando um ou outro veículo que não disfarçam as relações com o governo, os quais tentaram diminuir como puderam os efeitos do que o povo queria. A assessoria do governador insistiu em argumentar que era a favor da expressão livre e democrática, porém não achava que a manifestação expressava a opinião dos goianos, além de atacar veículos de comunicação que mostram podres da administração pública. Sim, o governo foi eleito no voto democrático, mas atitudes assim em uma época de mídias instantâneas e informação acessível, é um tiro no pé.




O que está acontecendo não é uma tentativa de terceiro turno, mas sim pessoas levantando da frente do computador e agindo como podem, mesmo com a maioria elegendo, ninguém é obrigado a esperar 4 anos para se indignar e mostrar isso de forma ordeira e expressiva. Termos uma queda do governador é a coisa mais difícil de acontecer, mas quem disse que as Diretas, o Fora Collor foram fáceis? Se esse não for o caminho, mas sim uma varredura na equipe do governo, como aos poucos está acontecendo, e parlamentares de calças curtas explicando o inexplicável, já é um ganho considerável.


Recentes notícias como a conturbada venda da casa de Marconi que virou de Cachoeira, em um condomínio de luxo de Goiânia, que o Estadão trouxe detalhes, dão mais ingredientes para o III Fora Marconi, que foi marcado para esse sábado, dia 05 de maio, 10h com saída no Lago das Rosas, do Setor Oeste. É prudente ao governo mudar a postura e não desqualificar um movimento que ganha proporções maiores, assim como as denúncias e provas que vem surgindo. Muitas mudanças vem acontecendo, e que os trabalhos de CPIs e do Poder Judiciário não ignorem a voz das ruas em suas investigações e julgamentos. 


Fotos de Victor Mileo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

E agora, carnaval?



              E agora, carnaval?
              A festa acabou,
              a luz desligou,
              o povo sumiu,
              a noite esfriou,
              e agora, carnaval?
              e agora, folião?
              você que é sem nome,
              que veste abadá,
              você que faz enredo,
              que pula, extravasa?
              e agora, carnaval?
              Está sem mulata,
              está sem bateria,
              está sem alegoria,
              já não pode beber,
              já não pode agarrar,
              dinheiro já não há,
              a noite esfriou,
              a quarta de cinzas chegou,
              o ritmo se perdeu,
              o riso acabou
              não veio a utopia
              e tudo se findou
              e tudo fugiu
              e tudo se guardou,
              e agora, carnaval?
              E agora, carnaval?
              Sua falsa alegria,
              seu instante de delírio,
              sua gula e bebedice,
              sua mídia,
              sua estampa de ouro,
              seu terno de purpurina,
              sua incoerência,
              sua tristeza - e agora?
              Com a bandeira no chão
              quer abrir a porta,
              não existe abre-alas;
              quer morrer na avenida,
              mas a avenida abriu;
              quer ir para a Sapucaí,
              Sapucaí não há mais.
              carnaval, e agora?
              Se você gritasse,
              se você caísse,
              se você tocasse
              o samba portelense,
              se você desmaiasse,
              se você cansasse,
              se você morresse...
              Mas você não morre,
              você é duro, carnaval!
              Sozinho sem apitos
              qual bicho-do-mato,
              sem desfiles,
              seu carro desmontado
              para se encostar,
              sem Globeleza
              que sambe a galope,
              você marcha, carnaval!
              carnaval, para onde?*
       
Após um período de férias, o Feira de Assuntos volta para ser espaço de opinião, reflexão, edificação e troca de idéias. Novidades no lay-out, ferramentas e conteúdos estão por vir. O blog, assim como muita coisa nesse país, volta agora, mas 2012 já começou com tudo, desde o primeiro dia de janeiro para os em sã consciência e de atitude, e espero que cada vez menos essa dita festa popular seja o divisor do calendário para dar início de fato a um novo ano. Enquanto essa mentalidade estiver na cabeça do brasileiro, as consequências dessa prevaricação irão ser cada vez mais prejudiciais. 


* Paráfrase do poema "E agora, José?" de Carlos Drummond de Andrade.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A espera de um final feliz



Viver sob regime ditatorial faz soar como um disparate enorme, em tempos de novas tecnologias, adventos inclusivo das telecomunicações, os Direitos Humanos, de ir e vir e de opinião. Um agravante maior, é a coação de um povo, que são pilares da humanidade, de conteúdos milenares e decisivos para a formação de povos ocidentais e orientais.


Já são duas semanas de protestos contra o presidente Hosni Mubarak, 30 anos irredutíveis no poder, gerando até o momento mais de 300 mortos. Os EUA como sempre, tentam interferir e usar a influência que já não é a mesma de tempos atrás. A política salarial é a pauta maior de reivindicação da população, porém, não a mais séria, não maior que a liberdade comprometida do povo egípcio.


Jovens incansáveis fazem plantão no centro da capital, Cairo, ao lado de cenários de tanques de guerra, O responsável pelas negociações, o vice Omar Suleiman, parece se mostrar flexível, mas teme um Golpe de Estado. Uma situação de se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Não se retira a força militar com medo de represálias, nem se interrompe as manifestações enquanto o presidente não fizer a transição de governo, ou mudar radicalmente questões políticas pontuais.


Privando por dias o acesso a internet, e as coberturas jornalísticas limitadíssimas, não podia ser diferente o clima de tensão alcançando todos os cantos do mundo. A luta por uma democracia concreta no país ainda vai longe. Qualquer manobra política pode acomodar o regime para não se mudar quase nada, e toda manifestação e mortes serem em vão. A conferir.