A polêmica
continua. O sistema de cotas ganha novas proporções e consequentemente, aumenta
os pontos divergentes. O novo projeto aprovado pelo Congresso Nacional
distribui em 50% as vagas do ensino público superior para alunos de baixa
renda, oriundos de escolas públicas, assim como para negros, indígenas e pardos.
Dois artigos
publicados nessa terça no jornal O Popular trás duas opiniões contrárias de
ótimas abordagens, do jornalista Rodrigo Alves e do empresário Melchior Luiz Duarte.
Esse é o ponto mais interessante, de se ouvir as diferentes percepções de um
debate tão importante, que dita os rumos da nossa sociedade, como formação da
cidadania. O assunto é quase infinito, mas sua urgência é imprescindível.
No Brasil com
suas peculiaridades e históricos sociais conturbados, a preocupação com a
equiparação do ensino provoca medidas ousadas, injustificáveis em um país sem
tamanha desigualdade social. O atraso no tratamento para com as classes sociais
e de grupos minoritários leva a opções de remediar, longe de conseguir
prevenir. Se um dia se conseguirá chegar a um patamar que não precise de tais
medidas, é uma grande interrogação.
Analisando
friamente, penso que não. Temos apenas um remédio que arrolará as oportunidades
para um maior alcance dos segmentos sociais, porém, não dará as condições que o
alicerce da educação não sustenta. O câncer do ensino básico provoca o efeito
cascata da falta de estrutura, que resulta na falta de retorno do aluno, sem
esperança para crianças trilharem seu caminho.
Acompanhando
ocasionalmente algumas escolas públicas de Goiânia, vejo uma grande massa do
corpo discente desinteressada e imersa em seus problemas familiares e sociais,
arrastando-se nos estudos acompanhada por professores desmotivados, com alto
nível de stress. Medidas de acompanhamento dessas mentes fecundas são tímidas,
transferindo para quem mais precisa de orientação resolver a maioria de suas
próprias dificuldades.
O programa
CQC na última segunda mostrou a situação de algumas escolas no estado do Piauí.
Colégios de uma única sala, em triste abandono, usado para várias faixas
etárias, com uma professora que também atua como diretora, coordenadora,
faxineira, e usa do seu salário pra tentar amenizar a precariedade do lugar.
Refeições de água de balde colhida em poço, sem luz e seneamento, uniformes
pagos pelos pais. Essa é uma mostra grátis do que tem sido oferecido, e
empurrar alunos assim para uma faculdade não lhes dá a mínima condição de uma
educação sólida.
Dinheiro para
isso não falta. Quanto a ele chegar a esse destino, não é o que temos visto. A
negligência com o ensino só aumenta o preço que todos pagam por não se
estruturar a formação do cidadão.
A dignidade na formação acadêmica depende muito do esforço do estudante,
porém, as condições a ele oferecidas, não ajudam em nada no respaldo que ele
trará. Exemplos de superação são vistos constantemente em nossa volta, mas para
arrancar a esperança de um ser humano em formação, basta tirar o que lhe é mais
fundamental.