Blog do Paullo Di Castro


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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Cotas e chacotas


A polêmica continua. O sistema de cotas ganha novas proporções e consequentemente, aumenta os pontos divergentes. O novo projeto aprovado pelo Congresso Nacional distribui em 50% as vagas do ensino público superior para alunos de baixa renda, oriundos de escolas públicas, assim como para negros, indígenas e pardos.

Dois artigos publicados nessa terça no jornal O Popular trás duas opiniões contrárias de ótimas abordagens, do jornalista Rodrigo Alves e do empresário Melchior Luiz Duarte. Esse é o ponto mais interessante, de se ouvir as diferentes percepções de um debate tão importante, que dita os rumos da nossa sociedade, como formação da cidadania. O assunto é quase infinito, mas sua urgência é imprescindível.

No Brasil com suas peculiaridades e históricos sociais conturbados, a preocupação com a equiparação do ensino provoca medidas ousadas, injustificáveis em um país sem tamanha desigualdade social. O atraso no tratamento para com as classes sociais e de grupos minoritários leva a opções de remediar, longe de conseguir prevenir. Se um dia se conseguirá chegar a um patamar que não precise de tais medidas, é uma grande interrogação.

Analisando friamente, penso que não. Temos apenas um remédio que arrolará as oportunidades para um maior alcance dos segmentos sociais, porém, não dará as condições que o alicerce da educação não sustenta. O câncer do ensino básico provoca o efeito cascata da falta de estrutura, que resulta na falta de retorno do aluno, sem esperança para crianças trilharem seu caminho.

Acompanhando ocasionalmente algumas escolas públicas de Goiânia, vejo uma grande massa do corpo discente desinteressada e imersa em seus problemas familiares e sociais, arrastando-se nos estudos acompanhada por professores desmotivados, com alto nível de stress. Medidas de acompanhamento dessas mentes fecundas são tímidas, transferindo para quem mais precisa de orientação resolver a maioria de suas próprias dificuldades.

O programa CQC na última segunda mostrou a situação de algumas escolas no estado do Piauí. Colégios de uma única sala, em triste abandono, usado para várias faixas etárias, com uma professora que também atua como diretora, coordenadora, faxineira, e usa do seu salário pra tentar amenizar a precariedade do lugar. Refeições de água de balde colhida em poço, sem luz e seneamento, uniformes pagos pelos pais. Essa é uma mostra grátis do que tem sido oferecido, e empurrar alunos assim para uma faculdade não lhes dá a mínima condição de uma educação sólida.

Dinheiro para isso não falta. Quanto a ele chegar a esse destino, não é o que temos visto. A negligência com o ensino só aumenta o preço que todos pagam por não se estruturar a formação do cidadão. A dignidade na formação acadêmica depende muito do esforço do estudante, porém, as condições a ele oferecidas, não ajudam em nada no respaldo que ele trará. Exemplos de superação são vistos constantemente em nossa volta, mas para arrancar a esperança de um ser humano em formação, basta tirar o que lhe é mais fundamental.